Dona de mim

Ser dona de mim é a maior revolução que venho caçando. Aos 44, percebo quão pouco dei as cartas da minha própria vida. Menina obediente, absorvi por décadas que o correto tem apenas um endereço e o caminho até ele é um só. Meu censor, juiz ajuizado, desconhecia o ilimitado que o lúdico traz.

Desmascarar mentiras que a vida conta é evoluir sozinha, rumo às estrelas. As mesmas estrelas que quando acesas dão luz ao que é precioso verdadeiramente.

Ser dona de mim me faz querer acender fogueiras feito bruxa em noite de lua cheia para queimar os manuais de boas maneiras que carreguei até aqui.

Bagagens demais pesaram os vagões, impedindo que meu trem voasse na velocidade da luz. Protagonizar a existência é isso afinal. Desfazer meus castelos de areia e construir outros tantos feitos de vento. Rasgar as regras e remenda-las com adesivos coloridos de bonecas e dragões. Dar voz ao meu pensamento para poder desaguar verdades reprimidas.

Ser dona de mim me faz menina. Me mantém mulher. Tortuosamente adorável, querendo cortar laços, desamarrar nós, e abrir caminhos. Assim contarei novas historias. Escritas por uma musa louca e intuitiva que me conduz num céu azul de infinitas possibilidades.

É assim que me lanço no abismo,  encorajada pelo frescor da transformação diária. Fluindo, vou experimentando alargar as margens (que eu mesma me impus) para passar com meu percurso vigoroso, sem pedir licença ao meu censor.

Experimentar atravessar esse rio é o início de um processo vagaroso, que inclui um tanto de descoberta, auto validação, dor, desânimo, perguntas, entusiasmo, força, deslumbramento. As camadas vão caindo de nós mesmas, e o que vai sendo revelado, o que fica ao final, é quem somos ou aquilo que nos tornamos.

Ainda estou em plena transição. Descobrindo aonde vou chegar, conduzida por esse trem de percurso incerto. Mas já me tenho. Já sei o que não quero. E abraço meu caos com gentileza quase constante, permitindo meus recomeços diários. E isso já está valendo a viagem.

Meu desejo de agora é ser bolinha de sabão. A danada sabe que é no agora que se esconde a beleza de ser. Ou me assumir como floresta que sou, onde verdades são bailarinas flexíveis que dançam melodias que vêm do coração. Essa imensidão é campo de plantio de sonhos, propósitos e esperanças. Quando florescem, tornam-se a minha revolução.

ilustração: Mercedes Debellard

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