Sem algemas

Valentina era casulo de borboletas, costureiras de um tecido raro, chamado transformação. Mulher livre, que rodopiava entre árvores, como fada etérea, era mesmo bicho intuitivo, meio bruxa, meio onça.

Se acuada, avançava com fome sobre seus opressores. Recuar nunca foi verbo que lhe conduziu. Quando invadida pelo medo do que vem, conectava sua alma às das ancestrais, que sussurravam os caminhos secretos a desvendar.

Era vida. Morte. Fim. E recomeço. Valentina era mulher da profundeza que o abismo tem. Aquele tipo que voa sobre suas dores, sem esperar amparo. Mulher pássaro, que embora enfrente tempestades, jamais desiste do seu destino.

Valentina, valente criatura. Constante, seu fluxo era linear. Mulher clara, escrevia sobre si quando parecia não mais resistir. Era feita de preciosos detalhes que lhe davam especificidade. Corajosa, persistente, tremia mas seguia quando tudo parecia distante.

Do passado, rancores eram descartados. Do presente, sugava os agoras que lhe serviam de margem para prosseguir por vias seguras, condutoras ao futuro vislumbrado. Fazia mágica com as mãos ao construir as imagens que o desejo lhe dizia serem prováveis realidades.

Valentina era amor. Mas, por ser racional, costumava secar sua alma nos varais do cotidiano hostil. E reservava sua essência apenas a quem lhe acalentava quando o choro parecia querer inunda-la. A vida desafiava aquela moça bonita com saltos ligeiros que lhe levavam ao alto.

Na aridez, se lhe faziam pequena, escondia-se no escuro do seu quarto. Se grande, ciente de si mesma, via a vida, líquido viscoso, escorrer das suas mãos. Valentina, poema feito de manhãzinha, era mulher nascente, acordava antes do sol. Queria apenas tempo. Por isso criava espaço para que ele chegasse breve.

Como copo de vidro grosso, resistia às quedas e aguentava o calor que dá no coração quando se embrenhava pela vida que tentavam lhe impor. Ela era muito mais que qualquer previsão. Seu cadeado foi arrombado com a força de seu pensamento. Quando entendeu ser a dona das algemas que lhe aprisionavam, derreteu o aço frio da submissão e vestiu asas. Descobriu que sua liberdade chamava-se renascimento.

ilustração: Chari Nogales

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