Fazer o bem sem olhar a quem

Opte ser farol. Já tem gente demais acendendo feixes de luz apenas sobre si e esquecendo do outro que caminha ao seu lado. Somos pateticamente egoístas. Queremos o bem, mas costumamos olhar a quem. É como se fizéssemos parte de uma panela vip na qual só os nossos pudessem entrar. Portanto, os outros – quem são mesmo os outros? – que se virem. Curioso, como buscamos evoluir. Tratamos de ir à missa, templos budistas, centros espíritas e terapias que nos conduzem ao autoconhecimento, mas o egoísmo e a seletividade são características difíceis de soltar, hein.

Nessa disputa em ocupar os espaços estreitos ou o protagonismo dos palcos da vida vamos nos acotovelando e pisando na cabeça de quem caminha à nossa frente no intuito claro de desbancar quem desconhecemos. É como se houvesse uma espécie de lista fechada, formada de convidados seletos, com quem iremos compartilhar a indicação bondosa do caminho correto para os tesouros que estão detrás do arco íris. E esses tesouros são infinitos: vão de um empurrãozinho na hora de conseguir um teste para aquela vaga dos sonhos da empresa que você conhece o presidente a um prato de sopa quente e a escuta amorosa ao cara que mora bem embaixo da marquise de seu edifício.

Essa patota vip pode se estabelecer em consonância com a condição socioeconômica-cultural ou a partir do gênero, orientação sexual ou raça. Vamos formando times em que só os competidores “puro sangue” podem fazer parte. Ignoramos a quem nos parece apagado e, embora adultos, ainda somos especialistas na prática do bullying, ao distribuir doses de deboche e hostilidade àqueles que sabemos precisar de uma mão amiga. Aliás, amizade tem se tornado coisa rara. Num afã de ser popular, num fetiche por aparecer e mostrar como somos perfeitos, colecionamos um número absurdo de fãs, amigos virtuais que de amigos não tem nada, e assim acreditamos nessa confraternização maluca instagramável.

Sabe amigo, aquele de verdade? Pois esse é farol, esse oferece lanterna quando atravessamos escuridões, amigo real se aproxima da gente ainda que nossa lâmpada esteja apagada, ainda que nossa casa inteira esteja sem luz. Porque não somos seres iluminados e brilhantes todo o tempo. Passamos por caos, demolições e, quando muito loucos, invadidos pelas tempestades que as crises trazem, fugimos para grutas úmidas e escuras, onde conseguimos ouvir o eco vazio da nossa alma. Fora das redes sociais, longe dos stories, somos todos muito humanos. Perecíveis e falhos. Vazios, ocos e imprudentes em muitas ocasiões.

Pois proponho então um circuito do bem. Examinemos o que temos feito pelo outro. Por aquele conhecido que acaba de chegar de outra cidade e pediu uma força para entrosar com gente da terra. Ou aquela amiga da prima que está desempregada e parece ser competente. Ela lhe entregou o currículo e você não fez nada por ela. E o senhor da sinaleira que lhe oferece diariamente panos de chão e balas a cada parada e você nunca sequer abriu a janela do carro para escuta-lo. Ninguém chega muito longe sozinho. Ninguém consegue experimentar uma jornada inteira sem se aproximar da diversidade. De nada adianta estar em panelinhas onde outros iguaizinhos a você também estão e acreditar que assim você está mais forte e tranquilo. Spoiler: a força está na união dos ímpares.

Queira o bem sem olhar a quem. Acenda luzes da sua estrada para que o outro possa passar sem tropeços ou escorregões. Aproxime-se de quem – a priori – nada tem a lhe oferecer e desfrute dessa companhia de maneira despretensiosa. A vida é curta. Um sopro mesmo como sabemos. E ser farol, iluminando caminhos diversos aos meus me traz uma incrível sensação de amor ao próximo. Não precisa haver um laço amoroso, fraterno para que eu e você nos compadeçamos com quem vive na mesma era que nós. Que minha alma acenda a sua e que a recíproca seja genuinamente verdadeira. Na minha turma, na minha patota eu quero os bons. Aqueles que nem conheço mas que já são amigos antigos, porque vibram na luz e sabem doar a mão, os ouvidos e o coração.

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