Mudar é aprender sobre o tempo

Acabo de mudar de casa. O bairro antigo, onde vivi desde a adolescência, já não é o meu. Hoje, enquanto você lê essa carta, eu estou entre caixas desfeitas, expirando aquele tanto de frisson que o novo traz. Amo mudança. Mas, por mais aberta que eu esteja a ela, perdi o prumo e o rumo enquanto a espera se fez. Acreditamos que o futuro, que habita apenas o amanhã, nos
impede de acordar para o presente que caminha bem aqui, neste instante onde deve(ria) estar a nossa inteireza. Não se engane. O futuro ainda é miragem, linha de chegada numa corrida árdua. Será a vontade de ver a paisagem que suavizará a maratona.

Como essa mudança atrasou, houve dias de chuva outros de sol. Procrastinar quis ser verbo constante. Desistir também. Obra é equação sem resultado exato, mas que revela um bocado de quem somos ou desejamos nos tornar. E ensina. Porque enquanto os dias passam, o
presente é visto a olho nu. É como se numa ampulheta a vida fosse passando pelo estreito canal de nome tempo. A casa demorou a ficar pronta. Precisou de reforma. Careceu que paredes fossem derrubadas e outras construídas. E enquanto esse tempo fluía, o futuro chegou em ciclos. Sonhos guardados para depois da mudança pularam de suas caixas aveludadas para tomarem forma enquanto a travessia não se consolidava.
Curioso isso. Ver o futuro dando as caras no presente. E não é assim mesmo a vida, afinal?

Os capítulos não seguem uma sequência rígida. Na sede em descobrir o que virá no amanhã acabamos enrijecendo a nossa capacidade de realizar. Mas aí a vida dá sinais, pistas, ou chame como queira, que nos sussurram sobre outras vias a serem percorridas nessa busca por aquilo que ainda habita, adormecido talvez, lá dentro do vindouro incerto. Nessa vivência torna-se
impossível não correlacionar o concreto com o abstrato. Difícil não associar uma mudança como essa, findada (será?) após meses, ao transmutar que margeia nossa infinita caminhada pessoal. Nossa, minha e sua. À medida que vamos descamando, deixando pra trás as peles que nos recobrem, vamos encontrando ou adquirindo contornos frescos, absolutamente inéditos, que nos provocam reflexões sobre quem estamos. É mesmo uma travessia interessante essa, intrínseca ao mudar, seja de casa, de pele, de vida. Demora, mas revela um transformar bonito. E de uma inteireza
sem tamanho. Assim como a casa carece reestruturar-se para receber novos moradores, também carecemos da desordem para nos descobrirmos.

Há paredes que urgem cair, para que novos espaços surjam arejados. Assim é na construção. Civil ou emocional. Ouvi dia desses que a dimensão da felicidade é do tamanho da vontade dequem a procura. Achei bonito, poético até. E se for pensar, é verdade. Mas a busca por essa felicidade precisa ser livre de qualquer tipo de idealização, concorda? Porque a felicidade de conquistar uma meta é indescritível, mas pode acontecer de não gerar a plenitude desejada. Ainda que você tenha escalado a montanha e cravado lá no topo a sua bandeirinha, isso arrisca vir acompanhado de um tremendo vazio. Fato é que a felicidade nos preenche durante a caminhada e não nas pausas. É nessa tal rotina diária que traz perrengue, descontentamento, frustração e milagres. Muitos. É porque o presente nos cega mesmo. O costume é acelerar no agora, em direção a um futuro tão incerto, cujo endereço ainda nem conhecemos, ou pior, enjaular a vida numa das grades que o passado dispõe, e dali nunca mais sair, sobrevivendo de nostalgia e sonhos mofados de uma época
vencida.

Milagre mesmo é o presente. E as lições que ele traz consigo.
Abrir os nossos portais para essa verdade é libertador. É nele, nesse presente ligeiro, que estão as benditas pílulas de felicidade que a gente anda caçando feito vagalume em noite estrelada. O ímpeto para ser feliz amanhã, quando as metas e objetivos forem alcançados, é tamanho
que termina nos distanciando daquilo que podemos inventar, hoje, por nós mesmas, enquanto aguardamos por um ideal qualquer. Entro nessa casa nova de coração aberto e alma renovada, porque enquanto a espera me fez de hóspede, a danada me ensinou sobre os deslumbres que o agora pode possui.

ilustração: Mercedes Debellard

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *