Abra suas caixinhas mágicas

Hoje é dia de ser. Como crianças, proponho um exercício lúdico. Apanha um caderno, ou folhas de papel mesmo, tudo bem, vai, e mais algumas canetinhas coloridas. Põe no Spotify a trilha de Henri Salvador ou Bary White, você escolhe, e mergulha em si. Sozinha, absorta, entregue às verdades que um dia foram genuinamente suas. E libera toda a capacidade que possui para sentir. Desagua suas emoções aí, nas páginas-espelho que você reuniu.

Desenha sem regras nem réguas a menina que você foi. Acrescenta suas brincadeiras preferidas que ainda habitam seu coração. Põe cor nesses rabiscos. Lembra, não é pra fazer obra de arte, mas arte. Pura. Solta a menina que mora aí dentro de suas entranhas e relembra a ela como era o tempo que hoje anda esquecido pelo tanto de afazeres. Concede o brotar de tudo que lhe faz bem, e que, embora esteja no passado, ainda são seu alicerce e esteio.

Você tem se saído muito bem até aqui, amiga. Compreende se o desenho estiver disforme ou sem sintonia com aquilo que você desejava. Feito é sempre melhor que perfeito. Continua. Põe nessas folhas o avô doce que, feito escudo, impedia suas dores. Pinta em cores vivas aquele pudim que só a sua mãe sabia fazer para o almoço de domingo. Divirta-se ao dar vida ao quintal da sua infância que parecia o céu de tão grande. A infância nos protege de tanto, não é mesmo. Como um carrossel, ela nos faz girar entre as emoções, mas jamais nos tira a fé e a esperança, ainda que lá, naquele temo perdido, não saibamos o nome desses sentires de gente grande.

Recorda. Tem mais por vir. Delineia a voz de seu pai perguntando que horas volta da festinha ou dá forma, como se fosse possível, ao cheiro do cabelo de sua mãe lhe envolvendo no boa noite antes de dormir. Sabe, amiga, as estrelas que você, menina, contava no céu e acreditava poder tocar, ainda vivem. Pois faz delas tapete iluminado para acender o caminho escolhido para os voos do seu coração. Não esmoreça nem abandone as caixinhas mágicas de ontem, onde você costumava guardar seus tesouros. Ali você colecionava os sentimentos raros que lhe prometiam o impossível. Mas como desenhos de adultos, nossos anseios mais leves e impulsivos se perdem quando crescemos. Mas não deixam de existir.

Por alguma razão enigmática, vamos nos distanciando das lembranças e seguindo um fluxo ao qual chamamos de destino. Mas seria mesmo o destino? Ou um tal de um adultecer? Observa seus traços nos papeis que acabou de usar? São rígidos ou suaves feito pensamento de menina? São coloridos ou sóbrios? Há concretude nesses rabiscos ou o abstrato impera? Reserva um tempo para desenhar sobre você, querida. Ao dar contornos à menina que foi, você tira os limites da mulher que é. Adultecer engessa sonhos e nos leva a lugares que escolheram por nós. Um casamento precipitado, uma viagem adiada, um trabalho enfadonho, uma casa castelo sem amor, um relacionamento sem respeito…

Veja o tanto que de tempo que ainda possui. O hoje é uma eternidade para quem deseja reescrever sua própria história. Começa agora. Esboça a mulher que almeja ser. Põe nessas folhas mágicas os lugares que ainda irá visitar, os amores que ainda terá. Colore seu tempo com uma paleta luminosa, cria novas estações, em que haja chuva gelada para lavar seu coração e sol fresco para fazer brotar as sementes que irá plantar. Modificar a própria vida dá trabalho. É exercício dos mais hercúleos. Porque exige comprometimento. Mas quando o milagre da transformação se descortina, ah, ninguém mais consegue lhe colocar rédeas ou lhe impor barreiras. Nem o tempo, nem a idade, nem o mundo…

Combinado então? Atividade de segunda. Desapegue-se das linhas que você costurou à sua pele como bordados definitivos. Esvazie-se das verdades que soluça feito o ar buscando saída. Não somos concretude, mas abstratas. Não somos a chuva. Mas nuvem esfumaçada, abstrata, que enfeita o céu. Ao leve e inesperado soprar do vento podemos ter a forma que o acaso moldar. Ou que nós mesmas, artesãs delicadas, quisermos nos dar. Não somos as pisadas de um sapato velho pela estrada entediante de uma rotina velha. Somos a engrenagem que move esses pés para caminharem. E essa engrenagem pode nos levar aonde desejarmos.

ilustração: Mercedes Debellard

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